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domingo, 13 de fevereiro de 2011

parte dois _O INICIO-( TRECHO DE PRISMA NA JANELA)



FOTOS  

               Era o cenário do caos. Pessoas de um caráter admirável , uma conduta tradicional à prova de qualquer sofrimento. Crianças mutiladas, pelas minas , pela fome , pela orfandade. Quando lá chegou , ela sentiu que poderia ser útil, de um modo diferente.

               E´ quando aparece alguém. Um invasor ( acho) , atrevido, cínico , sagaz , sem dizer uma só palavra , sem se aproximar. Ao longe , atrás de uma máscara, que usava constantemente. Arma , ou proteção? Parecia surreal atrás dela. Mais tarde , ela foi saber que era apenas seu modo peculiar, de ver o mundo. A lente.
                E foi através dela que ele a viu pela primeira vez. Estava sentada numa esteira de maili, uma espécie de junco africano,do qual se faz utilíssimas peças de artesanato.Fazia anotações, a cerca das estatísticas, de distribuição de recursos. Antes de um oi, olá, ou etu, ou ainda teah, cumprimento na língua local ,já existia ,uma não autorizada, foto.              
                E irritantemente , passou à persegui-la. Segundo ele , à interpretava ;porém, como diriam os vizinhos masais: roubava-lhe a alma. Melhor dizendo , acariciava,seduzia, valorizava , sondava:
                _Olá ! Sou Michel!
                _Oi, eu sou eu.- responde secamente Ahimsa.
                Acendendo um cigarro, um dia , ele à obriga à dividir seu banquinho de madeira em frente ao alojamento, afinal ele é pequeno ,estreito e é o único lugar pra sentar
sob a lua cheia, e o cheiro das violetas africanas,as mesmas que ajudaram Seke à comunicar-se com o americano em Amistad, gentilmente plantadas por uma doce alma nativa; para alegrar aquela humilde casa. A única mostra da nobreza da missão. Michel tira mais foto:
                _Você é linda! Muito gira!
                _Você é insuportável!- responde ela acendendo o cigarro.
                _Que há ?, Que escondes ? Por que?
                _Não vim me expor, vim trabalhar.
                _Deixa-me saber algo de ti!-diz ele em tom de súplica, típico do homem angolano , que sempre fala nesse tom com as mulheres, a maioria chega á baixar o tom ao se dirigir á elas. É por respeito , dizem eles , à própria mãe que os gerou, só sei dizer que isso os torna encantadores.

               _Deixa-me em paz- responde ela defensivamente, mas forçando um tom rude na voz, para disfarçar a ternura que sentiu, quando ele falou daquele jeito com ela.
               _Ah! Então é isso que buscas em meio à guerra? Tua paz, em meio à dor.
Dor alheia!
               _Porque quer saber ?
               _Me interessas. Podes confiar em mim, tu sabes, bem já percebeste isso.
               _Obrigado! Mas me reservo o direito de nada dizer, mesmo à quem posso confiar. Agradeço a generosa disponibilidade.
               _És bem difícil , tua casca bem grossa. Mas me dou por satisfeito!
               _Satisfeito?!( que ódio, grrrr).
               _Já sei que buscas paz. Já sei algo de ti. Mais o que me disseste pelo teu olhar.
               _Você é louco, presunçoso e pretensioso!
               _Louco sim, desde que te vi , pela tua beleza e atitude; presunçoso, isso depende de ti. Se nada me dizes , me resta presumir. Minhas pretensões , bom, eu ainda estou à elabora-las , mas creio que de minha parte serão as melhores possíveis.
                Mais uma foto. O tal MICHEL fumou mais um cigarro em silêncio. Depois virou-se e foi embora, sem se despedir, sem olhar pra trás. Ele tem um corpo lindo,perfeito! Tem um charme! Mas essa arrogância! Que chato!-pensou Ahimsa antes de terminar seu cigarro e adormecer, com a Lua testemunhando suas impressões. Verdade. Michel exala- va masculinidade ,no sentido mais amplo da palavra.O mais pleno, o tipo de energia que só se percebe em xamãs siberianos, que através de exercícios de yoga e uma rígida con-
duta mantém esse equilíbrio.Perceptível sutilmente , mas impossível de ignorar. Mas o fato
é que Michel não praticava o giro , nem a dança sufi, talvez alguns àsanas , quando se sentia estressado.Logo ,tudo isso deve ser proveniente, desse estilo de vida, totalmente masculino. Ou seria mais correto dizer necessarìamente masculino?
                No outro dia foi ela à observá-lo. Ficou curiosa. Ele à invadiu; por dentro.Que raio, ela o havia dito com o olhar ?
                Ele era respeitado por todos na aldeia. Ela não entendia bem o idioma local, mas o chamavam de algo que ela ouvia :Zamar . Significa bondoso , libertador, ela nunca soube direito. Todos o conheciam,ele amparava , encaminhava, conciliava, se necessário ou urgente provia, esclarecia, orientava. Falava muito de liberdade , da necessidade dela brotar no coração de cada um, principalmente nesse momento de mudança.
Era evidentemente um líder.Ahimsa procurou saber dele; Fotógrafo de profissão,angolano, família morava em Benguela, onde cresceu. Por movimentação política e por negócios, veio parar naquele cantinho complicado da África. Não era um homem vulgar. Centrado,racional, as vezes frio.
                 Aparência encantadora.Um misto de menino e guerreiro. O cavanhaque ralo, o olhar profundo, a pele de um moreno leve, parecia bronzeado. Árabe? Europeu?
Ambos? Que estranho! Um tipo desses , nascido em África? Querido pelos negros?
                 Foi no almoço, no refeitório da WWF. Gilberto ,o monge-médico convidou Michel para almoçar com eles. Ele senta bem de frente para Ahimsa, e a olha profun- damente :provocação.
                 Vendo o clima, Gil resolve puxar assunto com uma piadinha sem graça:
                 _Ahimsa, ta gostando do trabalho?As patricinhas, em três dias estão pedindo pra voltar. Você já ta aqui bem  dois meses.
                  _E sou patricinha?
                  _O nome no crachá é outro.-Pergunta Michel em tom de desafio- Ahimsa é nome de guerra?
                  _É hoje é meu dia mesmo, primeiro patricinha, agora fui promovida à prostituta. Nome de guerra?Por favor ?!
                  _ Calma, não foi isso que eu quis dizer! Desculpe brasileirinha! Não sabia esses costumes.
                  _Tudo bem. Ahimsa é um nome...
                  _...sanyasi ou vaisnava?
                  _Como sabe?
                  _É sânscrito.
                  _Ta bom, você é intelectual! Otimo!
                  _Gosto de cultura védica, mas você não me respondeu.
                  _Vaisnava.
                  _Você?!!
                  _Qual o espanto?
                  _Castidade , com esses peitões?
                  _São involuntários, amamentei dois.
                  _Obrigado,agora sei que tens dois filhos e que teus peitos são de verdade.
                  _Pára. E você?- responde Ahimsa com raiva.
                  _Continuarei. Bom, eu que saiba, não tenho nenhum filho.
                  _Que promíscuo, não saber!
                  _Não é bem assim. Mas me contes :como fizeste dois filhos sendo casta?
                  _(grrrrrr)Meus votos foram quebrados, lógico.
                  _Yogini, certo?
                  _Nem um pouco, eu diria até totalmente ao contrário.
                  _Não acredito- ele à olhou nos olhos e tentou pegar a mão dela, mas Ahimsa escondeu as duas embaixo da mesa e se afastou.
                  _Tua alma também foi quebrada!
                  Ela levantou correndo, indignada. E ele maldosamente fotografou a fuga. Ahimsa queria naquele momento, ser um guerreiro masai, para atacá-lo com razão cultural pra isso. Maldito!-pensava ela, sem saber que sua vida nunca mais seria a mesma.
                  Ahimsa detestava contato físico. Herança da convivência com Algoz. Se esquivava de um simples aperto de mão. Toque  significava dor. Ela não tentava se curar , porque reconhecia conscientemente nisso, uma defesa.Era tida como pessoa fria , por isso; realmente a expressão de suas emoções se restringia na maioria das vezes num esboço de sorriso.
                  À noite, ela sentou no seu banquinho. Lá vem Michel e sua câmera,
Ahimsa ataca:
                  _Se tirar uma foto minha,vai engolir essa câmera.
                  _Que agressiva tu estás! Através da lente , posso te ver melhor, te perceber na arte ,na poesia.No exato momento que te capturo..
                  _ Captura, chegou onde eu queria, tua opressora...
                  _...libertadora! Estou à te livrar de teus mais íntimos demônios.
                  _Quem é você? Deus? Krishna? Brahma? Vishnu?
                    _Eu sou o Michel. Como eu ia falando, a foto não te permite reagir, não te dá tempo pra isso, assim te conheço melhor.
                    _Sem a minha permissão!?
                    _Se eu te pedisse ?
                    _Minha resposta seria não.
                    _Já que gostas do assunto,vamos, por um ponto de vista mais divino. Se o criador me deu essa câmera, eu posso buscar arte, poesia e ternura na tua imagem. As imagens são concepções dele. És bela para o mundo, não para ti. A beleza existe porque Ele à criou, para alegrar e harmonizar o mundo.
                     _Dá pra parar!
                     E ele tentou de novo pegar a mão dela. Ela à segurou fortemente junto ao peito, ele puxou:
                     _Me deixa,não te machuco, juro.
                     _Não!
                     _Porque? Que temes /
                     Ele não quis agredi-la, mas segurou firme e puxou, pausadamente. Ela instintivamente , pra se precaver da dor, não reagiu.
                      _Só quero ver a tua mão, posso?
                      _Não!
                      Mas ele pegou a mão dela, colocou-a entre as suas; a abriu, acariciou dedo por dedo, com as pontas dos seus. Tocou a parte de cima com suas palmas, como que para sentir o calor; abriu-a e observou as linhas.
                      _És quiromante também?
                      _Não!- ele fechou a mão dela , como se se recuperasse de um
Êxtase.-eu estava á olhar a cicatriz no teu pulso.
                      _Isso não é da sua conta!
                      _É verdade, teu passado realmente não é!
                      _Ufa!-diz Ahimsa aliviada.
                      _Mas mesmo não sendo quiromante, sei que teu futuro é...
                      _o que?
                      _Da minha total responsabilidade.
                      _Por que diz isso?
                      _Boa noite, anjo.
Mais uma vez , a fotografia. Dessa vez , Ahimsa sem reação, com cara de tacho. Ele vira as costas e se vai. Um poema em forma de homem, deixando á mostra os braços máscu-
los, que a camiseta, teimava em não esconder, sob a escolta da luz da lua. O modo de andar , de segurar o cigarro; tudo parecia ter métrica ,rima,composição, sintonia;cada gesto,cada movimento, um verso. Lembrou-se que ele outro dia, veio com a camisa aberta, deixando o peito à vista. Só hoje ela foi entender que havia sido proposital. O brinco era novidade, a tatoo tribal no braço também. Ela começava á deseja-lo. Tinha de admitir, até pra poder controlar isso.
                       Outro dia , trabalho , rotina. Ela quem se convidou. Foram à uma aldeia mais distante liderados pelo Gil, para cadastro , identificações e distribuições. Ela conseguiu um lugar espremidinha no jipe, era contraste total com a cara de satisfação dela, inexplicável  naquelas condições.
                       Seu corpo parecia ter mudado. Que coisa maluca! Sua voz pare- cia ter mudado o tom. O ar entrava pelas narinas de modo diferente e saia de forma harmo- niosa. Até seu coração parecia mais calmo, ritmado. Aquele homem havia pegado sua mão!
Ninguém nunca tinha feito isso , não daquela maneira.
                          Mesmo com todas as transformações, Ahimsa não achava que podia ou devia ou tinha algum direito de invadi-la. Que a deixasse digerir sua própria dor. Mas ela passou à sentir o olhar dele. E deixou aproximar-se. Ouvia seus discursos orientadores à população. Falava de identidade cultural da etnia. Do orgulho de quem lá havia nascido , e do nome original do local. Dos ancestrais, guerreiros, daquele povo, seriedade absoluta, tom solene. Depois mudava completamente , brincava com as crianças , dançava imitando os rituais, era um palhação com elas. Quando um por acaso chorava , sempre tinha no bolso uma mágica , uma estórinha engraçada ,um abraço ,um aconchego , um afago. Ahimsa observava, aprendia.

                          Porém Michel andava armado, tinha uma uzi que eventual- mente carregava na mochila, mas a pistola automática era inseparável. Isso era misterioso
Porque era evidente que ele era um guerrilheiro, mas os militares angolanos também o respeitavam. Pareciam até ter negócios com ele.
                          O trabalho , as vezes , árduo , cansativo e aparentemente inútil, continuava. Agora ela se dedicava ainda mais. Havia começado à aprender o valor da solidariedade prática ,do viver essa solidariedade , seu trabalho agora brotava do coração. 

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A expressão mais pura e sagrada do amor, A verdade da energia sexual , expressão plena dela , quando realmente acontece a unidade :corpo , mente ,alma de ambos.Um ritual de cura , quando necessário.As intempéries da vida , fragmentam a individualidade, os rituais tantricos são capazes de reorganizar e reunificar nosso ser para vivermos de forma plena , nossa existência

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